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domingo, 5 de abril de 2015

[Livros] Harry Potter brasileiro? Mais que isso


Se você acompanhou as aventuras do bruxo Harry Potter durante a infância e a adolescência é muito provável que já tenha desejado estar naquele mundo mágico e encantador. Não só isso, mas também se questionado sobre como seria uma escola de magia no Brasil. Pois bem, a carioca Renata Ventura aceitou o desafio de trazer esse universo à nossa vasta terra e assim nasceu a saga do bruxo Hugo Escarlate, com dois livros lançados até o momento: A Arma Escarlate e A Comissão Chapeleira.


Negro, pobre, nascido em favela dominada pelo tráfico, Hugo é de cara um personagem extremamente diferente do fofo inglês Harry. Não havia como serem semelhantes, por sinal. Hugo é um garoto que sofreu privações e violências a vida inteira, desenvolvendo vários complexos e comportamentos nocivos tanto a ele mesmo quanto aos outros.

'Fiasco?'
O homem lançou-lhe um olhar torto e Hugo percebeu que havia acabado de arruinar seu disfarce de puro-sangue. A contra-gosto, o trocador explicou, 'Fiasco é como chamamos filhos de bruxos que nascem sem magia. Há outros termos por aí, mas esse é o mais usado.'” (A Arma Escarlate, p. 67)

Mas antes de prosseguir vamos à sinopse: Hugo, nascido Idá Aláàfin Abiodun (também… com esse nome quem não seria complexado?), é um garoto de 13 anos que descobre ser um bruxo no meio de um tiroteio (poético, não?). A partir daí, Hugo foge da favela em que mora e inicia seus estudos na escola Nossa Senhora do Korkovado, onde aprenderá a dominar seus poderes com esperança de uma vida melhor. Porém, o mundo não é um sonho e Huguinho ainda sofrerá muito e mais um pouco.

Sinopse vaga? Sim, eu sei. Mas é difícil falar sobre a história de A Arma Escarlate sem dar spoiler porque, inicialmente, a trama não é bem delimitada. A base do enredo é o contato de Hugo com esse mundo. E como é esse mundo, Pedro? Aff, um plágio de Harry Potter? Não, longe disso, leitorx.
Capa da primeira edição do livro (inclusive, é a que tenho =D )

O universo do livro baseia-se no mundo criado por J.K. Rowling, porém sem funcionar como uma fanfic ou algo do tipo. Renata Ventura, a autora, realiza várias referências à série inglesa, algumas óbvias, outras nem tanto, mas a inspiração para aí. Ela tem uma proposta bem modernista e bebe de várias fontes para criar algo inusitado. A ideia principal do livro é levantar vários questionamentos sobre a realidade brasileira a partir das diferenças entre os dois livros.

Há cinco escolas de magia no Brasil (uma em cada região). No primeiro livro, apenas a Korkovado, escola do Sudeste localizada dentro do morro do Corcovado, é mostrada, e no segundo, a de Salvador, mas nos livros seguintes as demais também farão suas aparições. Porém, não esperem a organização britânica. Estamos no Brasil, certo? Ou seja, esperem escolas tão boas quanto nosso ensino público: professores faltantes, direção corrupta, falta de recursos… É, a lista é grande. Ou seja, se a comparação com a saga de Harry deve ser feita é para explicitar todos os problemas estruturais que nosso país lindo tem.

Todos olharam para ele, percebendo sua presença, e o professor sorriu, 'O boto, sim. Obrigado pela contribuição, meu jovem. O boto… O mais perigoso de todos para vocês, meninas. Estão me ouvindo? Ele é tipo um golfinho cor-de-rosa, muito fofinho, mas que se transforma em homem para enganar mocinhas inocentes. Muito cuidado com ele, meninas. Ele não liga para idade. Fiquem sempre ao lado de seus pais, estão me entendendo?'” (A Comissão Chapeleira, p. 287)

Quer dizer então que o livro só quer criticar o Brasil? Não exatamente. Lembra quando eu falei da sua inspiração modernista? Então, A Arma Escarlate faz um trabalho enorme de valorização da cultura nacional, de mostrar que, mesmo com tudo de ruim, devemos ter orgulho de nós mesmos. Há a presença de personagens do nosso folclore, feitiços escritos em idiomas africanos e indígenas e etc. Renata soube se inspirar no global mas sem rejeitar quem nós somos.

Outro ponto positivo para a série é os personagens. Complexos, interessantes e realistas, não me surpreenderia se a autora fosse psicóloga tamanha a riqueza deles. A começar por Hugo. Já mencionei no início do texto, mas é bom falar novamente: ele não é um protagonista fácil e comum. Impulsivo, orgulhoso, hostil, rude, insensível… São vários os adjetivos ruins para Hugo, um menino capaz tanto de ser apenas chato quanto de cometer crueldades chocantes. Acredite: você vai odiá-lo.


Mas pera, isso é uma coisa boa? Dependendo do autor, sim, e felizmente esse é o caso. A Arma Escarlate é a saga de autoconhecimento e crescimento de Hugo. Ele vai sofrer e causar sofrimento, mas vai aprender e mudar com o tempo. Ele não é um mau garoto, apenas passou a vida em meio a violências, com poucos e fracos bons exemplos e raros carinhos.

Ele pode ter mudado de ambiente, mas muitas coisas ficaram impregnadas nele, muitas cicatrizes foram deixadas (literalmente, em alguns casos). Se você quer um protagonista para amar, sinto muito, livro errado. Mas se você quer alguém que seja realista e deseja acompanhar seu desenvolvimento e crescimento, aí sim você encontrará nele um ótimo material.

Hugo permaneceu com os olhos no Dona Marta, mais ou menos no local onde seu contêiner devia estar. 'Minha mãe não sabe que eu sou bruxo', ele respondeu, pensativo. 'Ela é evangélica. Nunca entenderá.'
[…]
'Ei...' Caimana se aproximou solidária, 'Ser bruxo não é pecado. Você nasceu assim, não é sua culpa!'” (A Arma Escarlate, p. 442)

Os demais personagens também não fazem feio. Logo ao chegar na Korkovado, Hugo depara-se com a divisão dos alunos entre os Pixies e os Anjos, com os primeiros sendo mais rebeldes e questionadores e os outros mais conservadores. O protagonista se aproxima dos Pixies e, mesmo não sendo um membro oficial do grupo, passa boa parte do livro na companhia deles.

Os Pixies são formados por Viny Y-Piranga, radical e ufanista, Capí, um rapaz extremamente pacifista, Caimana Ipanema, namorada de Viny, elfa e surfista, e Índio, “conservador” mas que por algum motivo entrou no grupo. Todos são muito bem desenvolvidos e vão além de meros coadjuvantes, possuindo panos de fundo sólidos e interessantes.

Renata Ventura, a autora. Curiosidade: conheci o livro diretamente por ela no Skoob, uma rede social de livros (e vocês não imaginam como ela é fofa <3 td="">
Enfim, já devo ter falado demais e espero que tenha ao menos te convencido a dar uma chance ao livro. Leia! Acredite, é muito bom, é nacional e levanta várias questões interessantes sem deixar de ser divertido e mágico.

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